Aproveitando o furor da discussão "proibir ou não proibir" sacolas plásticas no Estado de São Paulo, não poderia de deixar de dar um pitaco no asunto, sobre o qual há uma polêmica imensa, mas com muito pouca crítica - diga-se de passagem.
Em primeiro lugar quero esclarecer que, diferentemente do tom que está sendo dado à discussão, ou seja, ser a favor ou contra a distribuição das sacolas plásticas nos supermercados, começo por aí a minha crítica. A questão, me parece, precisa e merece ser tratada de forma mais complexa, precisa ser problematizada na sua origem e não em suas consequências. Para mim, uso de sacolas plásticas é consequencia, portanto, falar em proibição ou permissão só tem sentido como fim, e não começo da discussão. Afinal, o problema ambiental das sacolas plásticas teria nascido do nada e, aí, começaram os problemas ambientais que elas provocam?
Em primeiro lugar quero esclarecer que, diferentemente do tom que está sendo dado à discussão, ou seja, ser a favor ou contra a distribuição das sacolas plásticas nos supermercados, começo por aí a minha crítica. A questão, me parece, precisa e merece ser tratada de forma mais complexa, precisa ser problematizada na sua origem e não em suas consequências. Para mim, uso de sacolas plásticas é consequencia, portanto, falar em proibição ou permissão só tem sentido como fim, e não começo da discussão. Afinal, o problema ambiental das sacolas plásticas teria nascido do nada e, aí, começaram os problemas ambientais que elas provocam?
Pensando assim, na questão da origem, vamos ver, em primeiro lugar, as coisas nem sempre foram desse jeito: não saberia precisar exatamente quando o uso das sacolas plásticas se tornou regra no comércio, mas tenho lembranças da minha infância dos cartuchos de papel kraft usados nos supermercados para carregar as compras e do pãozinho na padaria envolvido num papel bege fino, parecido com o papel de seda, que acabou se popularizando com o apelido de "papel de pão" (essa expressão não deve nem ter sentido para a garotada de hoje, acostumados com o saco de pão). Ou seja, em algum momento, em algum lugar do passado, as sacolas plásticas não eram tão comuns, mas nem por isso havia impedimento para que as pessoas comprassem e transportassem suas mercadorias para casa.
Em segundo, se as sacolas de papel foram substituídas pelas de plástico, estas o foram porque atendia a algum interesse: talvez o custo menor, a praticidade maior, a possibilidade de reuso, pela necessidade de carregar um volume maior de compras... Enfim, há várias possibilidades que, isoladas ou conjuntamente, influenciaram a adesão maciça de comerciantes e consumidores ao uso da tal sacola plástica, tornando-as parte do dia-a-dia das pessoas.Em terceiro, podemos observar que as sacolas plásticas acabaram recebendo uma função importante do cotidiano do brasileiro, além do acondicionamento e transporte das compras: a de ser o invólucro dos resíduos domiciliares, ou seja, funcionando como "saco de lixo".
Por tudo isso, fico me perguntando se uma questão que envolve, no mínimo, três importantes aspectos - a mudança cultural, os interesses econômicos envolvidos e a qualidade ambiental - se resolve assim, simplesmente retirando a sua distribuição gratuita. Afinal, de fato, não há uma proibição do uso das sacolas plásticas, mas a proibição da distribuição gratuita das mesmas, de modo que, se você for ao supermercado na volta do trabalho e tiver esquecido sua sacola retornável ou o seu carrinho de feira, não vai deixar de levar a sua compra para casa: ou vai ter de usar a caixa de papelão que o supermercado poderá, de acordo com sua disponibilidade, oferecer gratuitamente ao consumidor, ou terá a opção de comprar a sacola plástica. Mas, de mãos vazias, sem fazer sua comprinha, é que não vai sair...
Aí eu me pergunto: como é que eu vou dispor o lixo na porta da minha casa? Em sacos comprados (sacos que são de plástico também)? O Estado vai proporcionar um serviço de coleta de lixo diferente da que hoje é prestada, que é com coletores que retiram os sacos (de plástico) nas calçadas e jogam no caminhão? Será que isso resolve o problema ambiental que tanto se fala, se, afinal, vamos ter de continuar colocando o lixo no saco plástico? Os supermercados vão nos oferecer desconto nos preços dos produtos, já que o custo das sacolinhas não só vai ser extinto, mas vai se reverter, em outra ponta, em lucro, pois elas serão vendidas a quem delas precisar?
E, ainda: houve algum estudo sobre medidas alternativas, como colocar embaladores nos caixas, para que não haja desperdício das sacolas? Pessoas que, treinadas, poderiam acondicionar maior volume de compras com menor uso de sacolas? Há dados para saber que fim leva a sacola plástica nas residências, qual é o percentual de reuso das mesmas? A impressão que dá é que usamos as sacolas plásticas só para as compras e as jogamos fora como se não tivessem uma utilidade posterior, de modo que, se simplesmente são jogadas fora, não há mal nenhum em eliminá-las do dia-a-dia das pessoas.
A parte mais prejudicial de políticas como essa não é o fato de ser difícil ou caro para se efetivar: é o atentado contra a cidadania, perpetuando um velho e mau hábito autoritário de se fazer política no Brasil: impondo obrigações aos cidadãos de cima para baixo, sem explicar o porquê e sem oferecer nem mesmo os meios para que a finalidade declarada seja alcançada. E depois temos de ouvir que tem leis que "não pegam", como se a lei fosse a responsável por não "pegar"...
Arrisco-me a fazer uma prognose, um tanto negativa, mas que me parece condizente com o cenário: quem vai pagar a conta é o consumidor. De um lado porque, para jogar o seu lixo fora, vai ter de comprar sacos plásticos, seja os que são produzidos para esse fim, seja os do próprio supermercado; de outro porque não acredito que a redução do custo com sacolas não vá se reverter em redução de preços dos produtos aos consumidores. E o meio ambiente também, porque os sacos plásticos continuarão sendo produzidos e lançados na natureza.
Portanto, não sou contra ou a favor da distribuição das sacolinhas. Sou contra o desperdício, o não reuso e, principalmente, a falta de serviço de coleta que me permita não usar as sacolinhas como único meio de me desfazer do lixo em casa. Ou seja, nem a favor, nem contra: apenas pelo uso racional e adequado, e por políticas que apresentem soluções factíveis e plausíveis para o problema do lixo. Será que é pedir demais?