sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Dia do consumo consciente
Escrevi um breve texto no site da Editora Saraiva sobre consumo consciente e gostaria de partilhar com vcs leitores do blog.
Para acessar, clique em: http://www.editorasaraiva.com.br/consumidorconsciente/
Até mais!
domingo, 20 de dezembro de 2009
Você sabe o que é simplicidade voluntária?
Será que precisamos de tantos bens para nos sentirmos bem? O que ter tem a ver com ser? Como ser feliz com poucos recursos materiais?
Estas são algumas das perguntas que o movimento "simplicidade voluntária" ("voluntary simplicity" ou, simplesmente, VS) tem procurado responder. A idéia é simplificar a vida, não só no aspecto material, reduzindo o consumo, utilizando os bens de forma mais racional, mas também na dimensão espiritual e emocional, buscando o bem estar e a felicidade interior.
Afora as questões morais que essa assertiva possa implicar, não é nenhuma novidade dizer que ser feliz na sociedade de consumo é, para a maior parte das pessoas, comprar. Trabalha-se dez, doze horas por dia, em fins de semana e feriados, leva-se trabalho para casa. Para quê? Para aumentar o salário, o bônus, as horas extras. E para quê? Para poder acumular, ter reservas, ter a possibilidade de comprar e acessar serviços. E para quê? Para, finalmente, ter uma vida mais tranquila, segura, feliz.
É uma espiral sem fim: ganhar, comprar; ganhar mais, comprar mais. Sempre haverá mais um minutinho da nossa vida que podemos investir no trabalho, como sempre haverá algum item de consumo que não temos em casa para comprar. E o preço que se paga por isso é alto, pois nesse ritmo de vida, o conforto material aumenta, mas em sentido inversamente proporcional vai a disponibilidade de poder usufruir desses benefícios.
A simplicidade voluntária questiona em que ponto essa espiral deve parar. Não prega, portanto, que se despoje completamente dos bens materiais, que se viva ao estilo de Thoureau em Walden*, mas sim que cada pessoa saiba até onde os objetos satisfazem necessidades e desejos genuínos e possa assim se libertar do consumo exagerado. A idéia é que façamos um questionamento sobre o que é de fato importante para o nosso prazer e satisfação pessoal, e se isso realmente corresponde a uma verdade interior ou apenas a resposta a um estímulo externo, que não necessariamente levará ao nosso bem-estar e satisfação pessoal.
Além da forma como nos relacionamos com os bens materiais, a simplicidade voluntária também propõe mudanças em outros aspectos da vida, que, se trabalhados pela via do auto-conhecimento e do fortalecimento da auto-estima, podem se tornar menos desgastantes ou complicados. Assim, ansiedade, estresse, angústia, culpa, entre outros sentimentos enraizados no estilo de vida contemporâneo, também são postos sob questão.
Para saber mais sobre simplicidade voluntária veja:
http://www.simplicidadevoluntaria.com/socied.htm
http://www.choosingvoluntarysimplicity.com/
*"Walden" é o livro escrito pelo americano Henry David Thoureau, baseado na experiência que viveu, em 1845, quando deliberadamente o autor se retirou do convívio social para morar isolado às margens do Lago Walden.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
31 de outubro: você vai de saci ou de bruxa?
Em tempos de pós-dia das crianças, uma boa oportunidade para sentar com nossos pequenos e fazer uma reflexão sobre a (des) necessidade de importarmos e consumirmos
costumes e tradições de outros países, que nada (absolutamente nada!), tem a ver com os nossos. E, quem sabe, aproveitar o vácuo para começar a preparar o terreno para dezembro, que já está aí...Quem quer fazer a festa do Saci ?
As festas do Dia do Saci crescem por todo o Brasil a cada 31 de outubro. O enfrentamento irreverente que os brasileiros fazem com o seu mito mais famoso ao Halloween do consumismo norte-americano ainda é desigual, mas é divertido. No Ceará, o Departamento de Patrimônio Imaterial da Secretaria de Estado da Cultura vem realizando um dia todo de festa n
a Biblioteca Pública, o município de Fortaleza instituiu o Dia do Saci em seu calendário oficial (PL nº 0189/2007) e a sacizada tem se espalhado aos pulos e redemoinhos por vários municípios do interior.
Desde que lancei o livro “A Festa do Saci” (Cortez Editora, 2007), no qual relato a história da libertação do Saci do calabouço da sociedade de consumo, por seres imaginários de todo o planeta, que muita gente me pergunta interessada como é mesmo que se faz uma festa do Saci. Respondo que a vantagem dessa festa é não ter fórmulas, cada qual faz a sua, do jeito que quiser. Nas áreas públicas há brincadeiras de corrida numa perna só, contação de histórias de assombração, apresentações teatrais e musicais performáticas, passeios saciclísticos, lanches coletivos, oficinas de bonecos de Saci e outras animadas sacizisses.
Mesmo assim, deu vontade de experimentar como seria uma festa do Saci em casa, na rua, no condomínio, no clube, no sítio, na casa de praia. Afinal, as bruxas do Halloween atacam é nesses espaços privados, levadas pelo cinema, tevê e internet. E foi convicto do quanto precisamos criar oportunidades para as crianças, especialmente as urbanas, vivenciarem o mito do Saci, que acabamos inventando na nossa casa uma festa do Saci, para ver como é mesmo, para experienciar com amigos esse encantador ritual de inversão e para poder sair contando a quem quer que queira fazer a sua própria festa do Dia do Saci.
A primeira coisa que fizemos foi transformar a quadra de futebol do condomínio em um capoeirão. Com o apoio do José Adjafre, que é um cenógrafo com trejeitos de saci, colocamos folhas secas no chão, jarros com muitas plantas e a iluminação foi toda feita com tochas de lamparinas. Ao fundo da quadra, emoldurada pela trave de futebol, ele fez um desenho enorme da cabeça de um saci, que serviu de imagem de fundo para os momentos de contação de histórias arrepiantes inventadas na hora pelas próprias crianças.
Foram escolhidas 77 imagens de Saci para serem projetadas e 77 músicas para animar a festa, porque 77 é a idade que uma pessoa pode virar Saci, se tiver conseguido continuar imaginativa depois dos 7 anos. Conseguimos 77 imagens diferentes de saci, com o pesquisador Vladimir Sacchetta, feitas nos mais impensáveis estilos plásticos e gráficos, por artistas como André Le Blanc, Angeli, Glair Arruda, J.U.Campos, Lobo, Marcus Cartum, Monteiro Lobato, Ohi, Paulo Caruso, Sônia Magalhães, Voltolino e Ziraldo. Essas imagens foram projetadas em um telão, apoiado no poste da rede de voleibol. Da tela que cobre a quadra, saltavam fitas coloridas anunciando as brincadeiras do vento à espera do assobio do Saci.
A DJ Renatinha montou sua parafernália no meio do mato. E, assim, como ocorreu com as imagens, o repertório musical foi composto pelos mais variados gêneros e estilos, tendo como ponto em comum apenas o caráter lúdico. Tocou Cássia Eller (A Cuca te pega), Itamar Assumpção (Adeus Pantanal), Karnak (Alma não tem cor, O Mundo, Ai, ai, ai, ai, ai), Suzana Salles (A mulher do atirador de facas, Zé Pelintra), Bia Bedran (As caveiras, Dona Árvore, Flor do Mamulengo, Pato Injuriado, Quintal), Ná Ozzetti (Atlântida), Diana Pequeno (Camaleão), Adriana Calcanhotto (Esquadros, Lig lig lig lé), Raul Seixas (Carimbador maluco), Tom Zé (Companheiro Bush), Paula Tesser e Valdo Aderaldo (Sou mais no tempo do Figueiredo), Kleiton e Kledir (Canção da meia noite), Madan (Emprego, O Bife, Letra Mágica, Patacoada, Gato da China), Balão Mágico (Super Fantástico, ET tererê) e Moisés Santana (Gentileza).
E a festa que rolou das 19 até as 22 horas tocou ainda Carol e os Malucos (Itsy bitsy spider, La bella polenta), Los patita de perro (La fiesta, Las tortugas), Toquinho (Caderno), Chico César (Odeio Rodeio, Pelado), Secos & Molhados (O Vira), Jota Quest (Pedrinho), Carlinhos Brown (Pererê Peralta), Daúde (Quatro meninas, Vamos fugir, Vida Sertaneja), Palavra Cantada (Rato), Gilberto Gil (Saci-Pererê, Sítio do Picapau Amarelo), Jorge Benjor, (Sasaci-Pererê), Rosi Campos (Tem gato na tuba), Herlon Robson (Tô ligado), Herbert Vianna (Uma Brasileira), The Beatles (Yellow Submarine), MPB-4 (O Pato), Frenéticas (Aula de piano), Gal Costa (Grande final), MC Marcinho (Rap do Lúcio), Patrícia Marx (A Festa do Menino Maluquinho); Sérgio Ricardo (Emília), Girotando (Ambaraba cicci’ cocco’) e Mawaca (Kazoe Uta, Sansa Kroma).
Dos meus livros “Flor de Maravilha” e “A Festa do Saci”, entraram na brincadeira as músicas cantadas por Olga Ribeiro (A sementinha, Bolhas de sabão, Curupira e Boitatá, Fábula sem moral, Pinóquio e Emília, Rói-rói, Vamos passear pela cidade, Xacundum no tum-tum do papai), Giana Viscardi (Brincar de Brincadeira, O nome do meu País), Marcelo Pretto (Marimbondo Azul), Suzana Salles (No ritmo das batidas do relógio da Praça do Ferreira) e, óbvio, a música A Festa do Saci, que fiz com o Orlângelo Leal, especialmente para chamar o Saci Pererê.
Por falar em chamar o Saci, um dos momentos mais mágicos da festa foi o da aparição do saci, na hora do Guarnicê. Peço ao leitor e à leitora que não comente esta parte na frente das crianças nem dos convidados, pois o segredo dela está na surpresa. É o seguinte: na hora em que o Orlângelo canta “Estou aqui meu Saci / Estou aqui chamei você / Pererê chamei você”, cuidamos que um ator, no caso o Márcio, da Banda Dona Zefinha, aparecesse pintado e vestido de Saci em uma laje na parte ao lado da quadra. Ele apareceu rapidamente, deu pulos e gargalhadas, jogou uma porção de gorros para a meninada e sumiu. Uns viram e outros não. E isso gerou um converseiro mítico maravilhoso, mediado pelo também zefínico Paulo Orlando.
Bom, mas já estou me adiantando na festa, quando ainda nem falei o que colocamos no convite: “Você só precisa trazer um pouquinho da sua guloseima preferida, aquela que você acha a mais gostosa de todas, para repartir com os amigos” (No centro da quadra, um círculo de tecido transformou-se em mandala de guloseimas). E tinha uma observação: “A Festa do Saci é uma festa que valoriza a criatividade e a imaginação. Portanto, crie o seu próprio personagem e venha para curtirmos juntos essa noite sacizística cheia de surpresas”.
Na entrada do prédio, colocamos uma cartolina e muitos pincéis coloridos pendurados em fio de náilon. Naquele papel, mais de trinta crianças escreveram o nome e a missão dos seus personagens. A resposta foi reveladora: Agente 00SACI (Lutar pela paz no futebol), Branca de Neve (Cuidar dos habitantes da floresta), Dama da Noite (Cuidar da paz na hora do sono), Fada da Natureza (Eu e o Saci devemos proteger a Natureza), Fada do Ar (Acabar com a poluição), Garota Azul (Deixar a festa mais azul), Duende (Minha missão é achar o Saci), Peloe (Acabar com a destruição das flores), Reg!!! (Minha missão é me conhecer), Robô Verde (Aguar todas as plantas e salvar o planeta), Saci (Cuidar do mundo), Senhor Noite (Alertar as lendas da noite) e Vaqueiro (Acabar com o aquecimento global, poluição e drogas). A festa terminou doce e animada com a Caça ao Brigadeirão.
Fonte das fotos: Bruxa (http://www.upenter.com.br/blogs/timbunet/wp-content/uploads/2009/09/7537bruxa.jpg); saci (http://www.cortocabeloepinto.com/wp-content/uploads/2009/04/saci.jpg). Acesso em 15.10.2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Em vez de dia mundial sem carro, dia nacional por um transporte público eficiente
Apesar disso, não vejo esse acontecimento como um insucesso da manifestação. Pelo contrário, vejo como uma oportunidade para pensarmos sobre o que significa este movimento para nós, paulistanos, cariocas, enfim, brasileiros de grandes centros.
Como já escrevi em post anterior, a nossa questão - o que se reforça com os fatos do dia de hoje - me parece que é outra, prévia e fundamental: o transporte público nas grandes cidades. Se é difícil convencer alguém a deixar o conforto do veículo particular, quem dirá convencê-lo disso para utilizar um transporte público precário?
É claro que o movimento no Brasil acaba esbarrando na questão do transporte público e expõe as deficiências do serviço. Contudo, quando a estratégia é deixar o carro em casa - ainda que por um dia - parece-me que isso só tende a reforçar a conclusão de que o jeito é continuar andando de carro, já que, sem ele, a cidade torna-se mais intransitável ainda.
Encontrar apoio num movimento mundial, de certa forma, avaliza e torna legítima a manifestação. Mas, diante das particularidades das nossas questões, fica a pergunta: por que não organizar a sociedade civil brasileira em torno de um movimento próprio, nacional, com sua razão de ser própria?
O dia mundial sem carro nasceu na França, com o objetivo de conscientizar as pessoas do uso indiscriminado do veículo particular. Não é o nosso caso aqui, pelo menos não para a maioria dos motoristas, que não se lançam no trânsito caótico das grandes cidades para ver o seu dinheiro literalmente virar fumaça porque gostam ou querem ou estão acostumados com isso. Para a maioria das pessoas, o carro não é usado para comprar pão na esquina ou ir ao cabeleireiro, mas porque se tornou indispensável para chegar à escola, ao trabalho, ao supermercado, pois não há outra forma de se transitar na cidade.
Outras questões, como a ausência de planejamento urbano, de políticas públicas de desenvolvimento que sejam capazes de ordenar o fluxo de pessoas na cidade, evitando grandes deslocamentos entre a moradia e o local de trabalho também são aspectos que terão de ser enfrentados. O transporte público é apenas o primeiro problema da lista (mas não o único).
A capacidade e a vontade de se organizar, como hoje se confirmou mais uma vez, a sociedade tem. Razões para se manifestar em favor da melhoria do trânsito, também tem - e de sobra!
Então, talvez, na minha humilde opinião, só falte rever as suas estratégias. Vejamos em 2010...
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Hoje se comemora o dia mundial do meio ambiente
Eu já comecei cedo, antes mesmo de me lembrar que dia era hoje, e por isso este vai ser o mote do post: pela manhã meu filho, de 6 anos, veio contar que a coleguinha dele disse que esses copinhos plásticos que se usam por aí vão demorar a sumir na natureza até o filho dela nascer. Aí, lá vai a mãe: "Não, filho, ele vai durar até o filho dela crescer, ter filhos, os filhos dele crescerem, e darem netos a ela, e depois bisnetos, e nascerem os filhos dos bisnetos...". Caramba!... São várias gerações! Quando falamos em 200 ou 400 anos num contexto histórico, é tão pouco, mas quando nos colocamos nessa linha do tempo e comparamos à nossa curtíssima existência, é tanto, mas tanto tempo...
Gostei muito de um comercial de TV que foi veiculada a uns anos atrás em que apareciam garrafas de PET e pneus velhos enlaçados como presentes para as futuras gerações. Gostei porque era chocante, porque mostrava de forma seca e direta o que estamos deixando em nossa passagem pela terra. Mas, principalmente, gostei porque nos dá a possibilidade de fazer diferente, de evitar esse fim.
Na minha infância tinha consumo, sim. A gente via TV, lia revistas, assistia ao Domingo no Parque e não tinha uma criança que não queria ganhar todos aqueles brinquedos que o Silvio Santos colocava no palco. Mas, diferente de hoje, minha geração também tinha brincadeiras de rua, na casa do vizinho, brincadeiras de bola, lanche na casa da tia, mexer com minhocas e barro no jardim... Naquele tempo, como o mercado infantil ainda era incipiente, havia muito espaço para a criatividade e a imaginação: se não existia o brinquedo na cor desejada, pintava-se em casa; se não existia coleira decorada para o seu cachorro, compravam-se enfeites na loja de armarinhos e se customizava. Hoje vamos ao shopping e não precisamos mais criar: está tudo pronto na vitrine, em cores e tamanhos para satisfazer qualquer sonho de consumo. É a consagração da máxima "eu não faço: compro pronto".
Por um lado, ótimo! Dá-se efetividade à lei do menor esforço, sobra mais tempo para consumir mais, para experimentar mais. Contudo, não somos reservatórios de experiências, não vivemos para somar sensações. Qualidade de vida não é só comer e vestir em abundância, mas é "des-envolver" todas as nossas potencialidades, é "sair do invólucro". E isso implica ver de forma diferente, pensar por outra perspectiva, ter a sua própria forma de entender o mundo, estabelecer relações humanas.
Então, se hoje é para fazer uma reflexão sobre o dia do meio ambiente, que seja esta: pensar um pouco - e fazer mais - por nosso espírito criativo. Deixar que ele nos guie mais, que nos mostre os caminhos, que ouse tomar um caminho desconhecido. É essa liberdade que certamente dará a resposta definitiva para crise ambiental que, diga-se, não é uma crise da natureza, é sobretudo uma crise das nossas relações sociais.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Um ano de "Consumo & Sustentabilidade"
Em segundo, lembrar que depois de amanhã será o dia mundial do consumidor e, para comemorar antecipadamente o "nosso" dia - afinal, todos nós somos consumidores, efetivos ou potenciais -, gostaria de aproveitar aoportunidade para fazer uma rápida reflexão sobre nossas responsabilidades, enquanto consumidores, no desafio da sustentabilidade. Mais precisamente, gostaria de pensar um pouco sobre a liberdade de escolha, que é um dos direitos básicos do consumidor e, para isso, começo perguntando: seremos nós realmente livres para consumir? Será que essa liberdade, na forma como hoje é concebida institucionalmente, é capaz de nos fazer participar efetivamente das mudanças nos padrões de consumo?
Primeiro, sobre a nossa liberdade de consumir, aqui entendida como a possibilidade de determinar o que, quanto, onde, porquê e se se quer consumir, já tive oportunidade de falar um pouco em outros posts. É perceptível que a liberdade de escolha cada vez mais cede espaço às forças descomunais das imposições do mercado, e o boicote, apesar de ser uma estratégia válida, é também uma estratégia que se ressente diante dessas tais forças, que não cansam de exibir o seu poder de controle crescente sobre a vida dos indivíduos; basta ver a proliferação de produtos e componentes de produtos de origem chinesa; a prática de preços semelhantes, quando não iguais, das grandes empresas de comércio; o uso da publicidade, especialmente entre crianças e adolescentes, apenas para citar exemplos óbvios. Por conta disso, ou seja, dessa diminuição da força da liberdade comoinstrumento de controle social, é evidente que fica difícil sustentar que haja possibilidades de se encampar uma efetiva mudança em direção à sustentabilidade ambiental apenas contando com a mudança dos nossos padrões de consumo, seja pela redução nas parcelas mais abastadas, seja por seu aumento nas camadas mais carentes da sociedade.
Em segundo, penso que oferecer ampla liberdade - ainda que, conforme dito, restrita em certo sentido - sem qualquer contrapartida em termos de responsabilidade daquele que a exerce, é uma completa temeridade. Quando se fala em liberdade de escolha ao consumidor, quando se pensa num arcabouço jurídico que, a pretexto de parear forças do hipossuficiente (consumidor)com o hiperssuficiente (produtor), outorga àquele vários instrumentos dedefesa de seus interesses, parece-me que isso não deva implicar, necessariamente, a inexistência ou a relegação a plano secundário das suas responsabilidades. Em outras palavras, o consumidor é o elo fraco na relação de consumo, é a "vítima" do sistema, a "presa" do mercado, mas nem por isso, isento de deveres. A questão ambiental, especialmente com o argumento do "consumidor consciente", traz à tona a necessidade de se rever o atual paradigma deconsumidor: trata-se de uma figura que deve, sim, continuar a receber tutela estatal e ser protegido pelas instituições, mas, por outro lado, também deve se submeter a obrigações que são inerentes ao cidadão como responsável pela qualidade de vida, tanto da sua como das futuras gerações. Da mesma forma que o consumidor não é plenamente soberano no exercício desuas escolhas, também não é, certamente, um ser alheio ao que ocorre no seu ambiente e nas relações sociais que nele se travam.
Empregar bem os recursos de que dispõe, evitando o desperdício e oconsumismo; escolher bem o que se consome, preferindo produtos que causem menor impacto social e ambiental; participar ativamente da solução dos problemas que atingem a coletividade são apenas alguns dos mais evidentes deveres do novo consumidor. Repensar sua liberdade - e sua responsabilidade também! - é uma empreitada difícil, mas, sem dúvida, o primeiro passo em direção ao novo tipo de sociabilidade e de cidadania que a questão ambiental demanda.
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
A propósito do final de ano...
Quando falamos em sustentabilidade ambiental e levamos o debate até as últimas conseqüências, o questionamento invariavelmente recai na necessidade de revermos o nosso processo civilizacional, nossa relação com a natureza e, principalmente, nossas relações com outros seres humanos. As possibilidades de se construir um mundo sustentável perpassam invariavelmente por questões de acesso e distribuição dos recursos ambientais para toda a humanidade, o que equivale dizer, a redução das desigualdades sociais, a erradicação da pobreza, a promoção da dignidade humana, e assim por diante.
O natal e o ano novo são eventos que deveriam propiciar, por sua natureza, um balanço sobre nossas atitudes em relação a esses objetivos: o natal porque, além de ser uma festividade religiosa, é também a comemoração, ainda que meramente convencional, do nascimento de uma personalidade marcante na história do mundo ocidental: Jesus Cristo, a quem se atribuem várias ações e ensinamentos sobre compaixão e solidariedade humana. E o ano novo porque, como o próprio nome diz e dispensa maiores explicações, é o dia da confraternização universal ou o dia mundial da paz.
Minha proposta para as festas de final de ano, portanto, além de evitar as lembrancinhas ou presentinhos (ou, se inevitáveis, que ao menos sejam úteis e, preferencialmente, duráveis e ecologicamente corretos), não exagerar na quantidade de comida ou bebida e evitar a encantadora, mas totalmente anti-ecológica chuva de papel picado no dia 31, é, curiosamente, dar sentido e praticar o que essas datas sugerem: refletir sobre a solidariedade e a compaixão, desejar um mundo menos violento e desigual, respeitar o próximo inteiramente. Se não pelo apelo religioso que essa sugestão possa ter, que seja, então, pela razão científica da sustentabilidade ambiental.