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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sacolas plásticas: sobra conversa e falta assunto

Aproveitando o furor da discussão "proibir ou não proibir" sacolas plásticas no Estado de São Paulo, não poderia de deixar de dar um pitaco no asunto, sobre o qual há uma polêmica imensa, mas com muito pouca crítica - diga-se de passagem.
Em primeiro lugar quero esclarecer que, diferentemente do tom que está sendo dado à discussão, ou seja, ser a favor ou contra a distribuição das sacolas plásticas nos supermercados, começo por aí a minha crítica. A questão, me parece, precisa e merece ser tratada de forma mais complexa, precisa ser problematizada na sua origem e não em suas consequências. Para mim, uso de sacolas plásticas é consequencia, portanto, falar em proibição ou permissão só tem sentido como fim, e não começo da discussão. Afinal, o problema ambiental das sacolas plásticas teria nascido do nada e, aí, começaram os problemas ambientais que elas provocam?
Pensando assim, na questão da origem, vamos ver, em primeiro lugar, as coisas nem sempre foram desse jeito: não saberia precisar exatamente quando o uso das sacolas plásticas se tornou regra no comércio, mas tenho lembranças da minha infância dos cartuchos de papel kraft usados nos supermercados para carregar as compras e do pãozinho na padaria envolvido num papel bege fino, parecido com o papel de seda, que acabou se popularizando com o apelido de "papel de pão" (essa expressão não deve nem ter sentido para a garotada de hoje, acostumados com o saco de pão). Ou seja, em algum momento, em algum lugar do passado, as sacolas plásticas não eram tão comuns, mas nem por isso havia impedimento para que as pessoas comprassem e transportassem suas mercadorias para casa.
Em segundo, se as sacolas de papel foram substituídas pelas de plástico, estas o foram porque atendia a algum interesse: talvez o custo menor, a praticidade maior, a possibilidade de reuso, pela necessidade de carregar um volume maior de compras... Enfim, há várias possibilidades que, isoladas ou conjuntamente, influenciaram a adesão maciça de comerciantes e consumidores ao uso da tal sacola plástica, tornando-as parte do dia-a-dia das pessoas.
Em terceiro, podemos observar que as sacolas plásticas acabaram recebendo uma função importante do cotidiano do brasileiro, além do acondicionamento e transporte das compras: a de ser o invólucro dos resíduos domiciliares, ou seja, funcionando como "saco de lixo".
Por tudo isso, fico me perguntando se uma questão que envolve, no mínimo, três importantes aspectos - a mudança cultural, os interesses econômicos envolvidos e a qualidade ambiental - se resolve assim, simplesmente retirando a sua distribuição gratuita. Afinal, de fato, não há uma proibição do uso das sacolas plásticas, mas a proibição da distribuição gratuita das mesmas, de modo que, se você for ao supermercado na volta do trabalho e tiver esquecido sua sacola retornável ou o seu carrinho de feira, não vai deixar de levar a sua compra para casa: ou vai ter de usar a caixa de papelão que o supermercado poderá, de acordo com sua disponibilidade, oferecer gratuitamente ao consumidor, ou terá a opção de comprar a sacola plástica. Mas, de mãos vazias, sem fazer sua comprinha, é que não vai sair...
Aí eu me pergunto: como é que eu vou dispor o lixo na porta da minha casa? Em sacos comprados (sacos que são de plástico também)? O Estado vai proporcionar um serviço de coleta de lixo diferente da que hoje é prestada, que é com coletores que retiram os sacos (de plástico) nas calçadas e jogam no caminhão? Será que isso resolve o problema ambiental que tanto se fala, se, afinal, vamos ter de continuar colocando o lixo no saco plástico? Os supermercados vão nos oferecer desconto nos preços dos produtos, já que o custo das sacolinhas não só vai ser extinto, mas vai se reverter, em outra ponta, em lucro, pois elas serão vendidas a quem delas precisar?
E, ainda: houve algum estudo sobre medidas alternativas, como colocar embaladores nos caixas, para que não haja desperdício das sacolas? Pessoas que, treinadas, poderiam acondicionar maior volume de compras com menor uso de sacolas? Há dados para saber que fim leva a sacola plástica nas residências, qual é o percentual de reuso das mesmas? A impressão que dá é que usamos as sacolas plásticas só para as compras e as jogamos fora como se não tivessem uma utilidade posterior, de modo que, se simplesmente são jogadas fora, não há mal nenhum em eliminá-las do dia-a-dia das pessoas.
A parte mais prejudicial de políticas como essa não é o fato de ser difícil ou caro para se efetivar: é o atentado contra a cidadania, perpetuando um velho e mau hábito autoritário de se fazer política no Brasil: impondo obrigações aos cidadãos de cima para baixo, sem explicar o porquê e sem oferecer nem mesmo os meios para que a finalidade declarada seja alcançada. E depois temos de ouvir que tem leis que "não pegam", como se a lei fosse a responsável por não "pegar"...
Arrisco-me a fazer uma prognose, um tanto negativa, mas que me parece condizente com o cenário: quem vai pagar a conta é o consumidor. De um lado porque, para jogar o seu lixo fora, vai ter de comprar sacos plásticos, seja os que são produzidos para esse fim, seja os do próprio supermercado; de outro porque não acredito que a redução do custo com sacolas não vá se reverter em redução de preços dos produtos aos consumidores. E o meio ambiente também, porque os sacos plásticos continuarão sendo produzidos e lançados na natureza.
Portanto, não sou contra ou a favor da distribuição das sacolinhas. Sou contra o desperdício, o não reuso e, principalmente, a falta de serviço de coleta que me permita não usar as sacolinhas como único meio de me desfazer do lixo em casa. Ou seja, nem a favor, nem contra: apenas pelo uso racional e adequado, e por políticas que apresentem soluções factíveis e plausíveis para o problema do lixo. Será que é pedir demais?

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Ecobags: você mudou a sacola, mas mudou a atitude também?

Agora a moda é ecobag: já viu quanta gente tem usado? E quantos estabelecimentos têm oferecido a sua, como brinde ou bem baratinho? E outras nem tão baratinho assim?
Eu mesma tenho as minhas: uma legítima, feita de saco de farinha com alças de retalho de tecido emborrachado; e outra, mais bonitinha, mas nem tão eco, feita de tecido cru, novo, estampadinha com umas palavrinhas de ordem ecologicamente corretas. Seja como for, estão me ajudando a evitar os tais saquinhos plásticos, o que já é uma vitória.
Mas essa mudança no meu comportamento me levou um questionamento básico: ok, muita gente mudou a sacola, mas, e o que vai dentro dela?
Se você não parou para pensar se há possibilidade de mudar também o que vai dentro dela - e não me refiro apenas à substituição dos produtos convencionais pelos ecologicamente corretos, mas também da quantidade de coisas que compramos e que não precisamos ou que tem pouca serventia no nosso dia-a-dia - espero que este post seja capaz de fomentar uma reflexão sobre essa mudança de atitude.
Mas se você já parou para pensar nisso e descobriu que, apesar do seu esforço em reduzir seu consumo ao que realmente é necessário (não confunda isso com essencial, que é outra coisa), há uma parte do esforço em prol da sustentabilidade que vai além do seu esforço individual, ótimo! É sobre isso que gostaria de falar um pouco neste post.
De uns anos para cá tem crescido vertiginosamente o marketing verde: as ecobags são fruto dessa nova tendência de mercado, assim como o são os carros flex, o papel sulfite reciclado, o filtro de papel do cafezinho, a adoção de canequinhas de plástico ou alumínio, as roupas feitas de PET, as sacolas oxibiodegradáveis, produtos orgânicos, só para citar alguns exemplos bem corriqueiros. Com o surgimento dessas opções, parecem se ampliar as possibilidades de nossas escolhas de consumo serem, senão favoráveis, pelo menos não prejudiciais ao meio ambiente.
No entanto, um primeiro problema que surge é: nem sempre esta substituição ocorre sem afetar o bolso do consumidor; muito pelo contrário, é comum que o produto "ecologicamente correto" seja mais caro, o que induvidosamente acaba comprometendo a adesão dos consumidores ao novo produto, atraindo apenas uma minoria engajada com a questão ambiental.
Uma segunda dificuldade diz respeito a detectar o caráter "sustentável" do produto que se está comprando. Por exemplo, será melhor usar uma xícara de faiança ou copos de plástico? Se você acha que é o primeiro, de acordo com a reportagem de Ana Luiza Moulatlet na edição especial de Caros Amigos n. 34, ano XI, de setembro de 2007, p. 29, errou: a xícara de faiança, apesar de ser reutilizável, consumiria mais carbono no transporte devido à necessidade de se utilizar embalagens mais resistentes devido ao seu peso e fragilidade; graças a essa característica, é mais difícil de ser empilhada, o que acaba fazendo ocupar mais espaço no transporte, levando a um consumo maior de combustível. E, por fim, para que o uso da xícara fosse mais vantajoso seria necessário ser lavada pelo menos 1800 vezes. Enfim, em se tratando de sustentabilidade, nem sempre o que parece ser, de fato é.
Terceiro aspecto que compromete o valor e o peso das ações dos consumidores é a existência de um aparato tecnológico disponível para reciclar tudo o que vier a existir no momento pós-consumo que for possível reciclar. Há coleta seletiva no seu bairro? Se sim, para onde levam os resíduos que foram separados? Quais desses materiais acabam não encontrando destinação na cadeia da reciclagem e para onde vão?
Ainda nessa linha do aspecto tecnológico, o processo de reciclagem de alguns produtos eventualmente superam o consumo de carbono da produção de um novo produto, o que torna a reciclagem um mau negócio para a natureza.
Finalmente, uma quinta questão é destinação dos resíduos de pequeno ou nenhum valor mercadológico. Alumínio, estamos cansado de saber, tem mercado certo no Brasil e no mundo. Mas, será que todo tipo de plástico tem o mesmo fim?
O cenário é, sem dúvida, complicado, confuso, incerto e até, de certa forma, desanimador. Afinal, nesse estado de coisas, não há como não se perguntar se o esforço que os chamados consumidores conscientes estão empreendendo realmente terá impacto positivo sobre a qualidade ambiental... E pior: se não estiver surtindo nenhum efeito, que possibilidades existem?
Por esses motivos, quando falamos de sustentabilidade no consumo, não há como restringir a ação do consumidor a apenas substituir, reduzir ou reutilizar produtos convencionais por produtos verdes. Essa é a lição de casa que nossa geração e as futuras precisarão diariamente fazer, incorporando esses hábitos ao dia-a-dia, tal qual escovar os dentes ou tomar banho.
Contudo, isso é apenas parte, no aspecto individual, do temos de fazer. No plano do coletivo, desde reivindicar das empresas uma produção mais limpa do ponto de vista ambiental e a responsabilidade pelos resíduos do pós-consumo, até exigir do Poder Público a implementação de políticas sérias de controle ambiental e cobrar resultados efetivos, assumir uma postura ativa como cidadão - no sentido de sujeito com direito a ter e reivindicar direitos - é condição sine qua non para se debelar a crise ambiental.
Portanto, mais do que mudar hábitos de consumo, é necessária uma mudança de atitude, reconstruindo não só as relações com os objetos materiais, mas, principalmente, repensando as formas como nos relacionamos socialmente, praticando outro tipo de socialidade, outro modo de vida.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Retomando o blog numa reflexão para o dia 29 de novembro, o dia sem compras

Depois de meses sem escrever sequer uma linha - na verdade, iniciando vários posts, mas sem conseguir concluir nenhum por absoluta falta de tempo - aproveito a comemoração do "buy nothing day" para voltar a bloggear, ainda que num texto curto, rapidinho.


O "buy nothing day" ou "dia sem compras" é uma iniciativa da ONG canadense Adbusters (http://www.adbusters.org/), um evento que se repete anualmente desde 1993. A sua proposta é de passar um dia inteiro sem compras como protesto e forma de reflexão sobre o consumismo. Na América do Norte a data é comemorada hoje, mas nos demais países, amanhã, dia 29 de novembro.


A iniciativa é louvável. Afinal, os diversos problemas ambientais que enfrentamos estão relacionados, com maior ou menor mediatidade, ao consumo. No entanto, antes de pensarmos sobre nossos hábitos de consumo propriamente ditos, minha proposta para hoje é de assumir uma outra perspectiva, procurando refletir sobre quanto desses hábitos são determinados por nossas escolhas e gostos pessoais e quanto é influenciado por pressões externas do meio social, principalmente da publicidade e da lógica da produção. Será que ainda conseguimos divisar o que realmente é prazer ou gosto pessoal, e o que é uma mera resposta aos estímulos externos? Será que gostamos tanto assim da novidade, do inédito, do mais moderno ou simplesmente nos condicionamos a estar insatisfeitos, em constante estado de busca? Enfim, o desejo por consumir excessivamente é uma condição inata do ser humano, que aflora e cresce por si própria dentro de cada um, ou é um paroxismo da nossa organização social?


sexta-feira, 20 de junho de 2008

Comendo com os olhos: a pressão do consumidor sobre a produção agrícola

Uma boa comida, diria algum gastrônomo, decididamente não precisa ser apenas nutritiva ou deliciosa, mas, também, bonita. Quem nunca comeu com os olhos as guloseimas cuidadosamente confeitadas, enfileiradas nas vitrines de alguma doceria? Ou sentiu a boca se encher de água ao ver (ou só pensar) num prato deliciosamente apresentado?

Essa seleção visual sobre alimentos se explica não só pelo instinto de sobrevivência, que nos garante apetite para variar os alimentos consumidos e para evitar os venenosos, mas também revela um componente cultural, onde os alimentos bonitos e perfeitos são associados à idéia de mais saudáveis, mais nutritivos, além de contarem com um melhor aproveitamento no seu preparo ou consumo. Por isso vemos muitas donas de casa, tão zelosas em suas compras, escolhendo cuidadosamente os alimentos por tamanho, cor, estado de maturação, frescor, peso etc. A combinação de critérios é enorme e, para quem não entende nada de cozinha, mais parece um exercício inútil, já que os cachos de banana parecem não diferir muito entre si, tampouco os tomates, as cenouras, as maçãs, que se empilham, iguaizinhas nos tabuleiros... Já o que foge desse padrão, o que está machucado, amassado, desfolhado, vai logo ficando para trás, para a chamada "hora da xepa" ou para o dia de oferta, em que são pechinchados e levados para casa bem mais baratinho.

No entanto, o que parece ser uma inocente atividade doméstica, um carinho e um cuidado especial com a saúde da família, guarda, por outro lado, um preocupante problema de ordem ambiental: a quantidade de alimentos que é desperdiçada para se selecionar aqueles alimentos tão perfeitos, cheirosos, reluzentes, fresquinhos e iguaizinhos. Se observarmos um pé de fruta ou uma horta, não será difícil perceber que os seus produtos não são idênticos: alguns nascem um disformes, outros têm uma tonalidade diferente ou manchas, uns têm buracos de bichinhos, alguns são maiores que outros ... Bem diferente do mundo homogêneo das barracas das feiras livres ou balcões do supermercado!

A ilusão custa caro: afinal, para se chegar a isso - a tamanha homogeneização - é preciso selecionar e produzir muito, agrupando por tamanho, por cor, por peso, por formato, para então vender por preços e para públicos distintos, e isso tudo, numa escala de produção tal que permita todo esse processo. É certo que os alimentos que não são qualificados como inadequados para o consumidor direto acabam servindo a outros fins, como a indústria de alimentos. Contudo, ainda assim, continuam a servir à mesma ilusão, na medida em que, embalados nas caixinhas tetrapak ou nas latinhas de conserva, lado a lado nas prateleiras dos supermercados, são perfeitamente iguais, no sabor, na cor, no tamanho, na quantidade.

Além disso, muito se argumenta (e eu nunca vi quem discordasse disso) que o problema da fome no mundo hoje é um problema de distribuição, não de produção de alimentos. Afirma-se que alguns poucos se refestelam no excesso e no desperdício, ao passo que a grande parte não acessa ou acessa parcialmente esses alimentos. Se não for repensada essa forma de apropriação e de distribuição da comida, o que será de nós daqui uma década, quando se projeta que a população mundial será de aproximadamente 10 bilhões de pessoas? Será possível prosseguir nessas práticas?

Esse, me parece, é o árduo desafio do consumo sustentável: o despertar do sonho da infinitude dos recursos naturais e do absoluto controle da natureza e seus processos. O reconhecer da imprescindibilidade de se rever padrões e hábitos de consumo. O estabelecer de uma nova postura crítica e ativa diante da realidade. O partilhar como condição para a qualidade de vida. O repensar e o refazer da nossa formação cultural. E, quiçá, a emergência de uma nova sociedade, uma nova civilização...




quinta-feira, 12 de junho de 2008

O consumo verde e o risco de elitização do ecológico

Uma coisa que tem me preocupado um pouco é o crescente apelo ao consumo verde – aqui entendido como consumo de bens produzidos com menor impacto ambiental – como uma suposta solução aos problemas ambientais. É claro que precisamos, com absoluta urgência, criar hábitos de consumir produtos menos impactantes para a natureza e para a nossa saúde. Disso, aliás, as pessoas parecem estar cada vez mais conscientes, dispondo-se, inclusive a pagar um pouco mais por itens de consumo orgânicos e certificados. No entanto, será que esta é uma estratégia eficaz para a incorporação das questões ambientais nos hábitos de consumo?

A mim particularmente parecem ser necessárias algumas reflexões antes de oferecer alguma resposta a essa pergunta.

Em primeiro lugar, lembrando que a mera substituição de produtos do nosso consumo por outros menos impactantes, não leva necessariamente à reflexão sobre os níveis do nosso consumo. Quando se fala em três ou cinco planetas Terra para suprir a necessidade de consumo de toda a população mundial, considerando como referência o padrão de consumo dos países desenvolvidos, fica difícil limitar nossa reflexão apenas ao que consumimos e não expandi-la a um questionamento sobre o quanto consumimos, sob pena de construir um pensamento limitado e parcial do problema. Distribuir melhor os recursos, num sistema fechado e finito como o nosso, é fundamental para a almejada sustentabilidade.

Por outro lado, considerando que os produtos ecologicamente corretos são mais caros, seja porque a produção é mais custosa, seja porque apenas se agrega ao produto o caráter “verde”, não é difícil deduzir que, em tais circunstâncias, as preocupações com o meio ambiente ficarão por conta ou daqueles que podem pagar mais por esses produtos, ou à custa dos consumidores mais conscientes que, apesar de pagar mais caro, acreditam no valor do seu sacrifício. De qualquer forma, todavia, a responsabilidade acaba sendo depositada nos ombros de uma minoria.

No entanto, a oferta de produtos orgânicos e certificados, com identificação e destaque do aspecto ecologicamente correto, ainda que como diferencial competitivo entre produtos, pode ser um meio bastante eficiente para se levar a questão ambiental para o cotidiano dos consumidores, fomentando, ainda que de forma gradativa, a abertura e ampliação das discussões sobre o meio ambiente no contexto das relações de consumo.

Falar em sustentabilidade, em cuidado com o planeta, não pode continuar sendo uma tarefa para uma pequena fração esclarecida da sociedade. Por isso, minha preocupação com essa possível “elitização” do ecológico: de um lado porque, enquanto prática restrita a um grupo minoritário na sociedade, não será capaz de alcançar significativos impactos na qualidade ambiental; de outro porque pagar mais caro pode alimentar nesses consumidores a equivocada noção de que se já pagou para que outros resolvam o problema ambiental do produto que está consumindo, não precisará mais se preocupar em modificar seus hábitos.

Além disso, muitos produtos que estão pelas prateleiras dos supermercados e dos shoppings mundo afora e que se dizem “100% natural”, “totalmente ecológico” ou que “faz bem para a natureza”, nem sempre advém de um processo produtivo limpo ou são, de fato, menos impactantes, o que acaba lesando tanto o consumidor como o meio ambiente. Mas isso é assunto para um outro post...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Made in USA (Brazil, France, Argentina...)? Não... Made in China!

Em matéria de consumo, uma reflexão que cada vez mais tem se tornado incontornável é a da relação entre os problemas ambientais e as (más) escolhas do consumidores. A proposta do consumo sustentável perpassa por esse aspecto, incitando os consumidores a pensar sobre as suas escolhas e fazê-las de modo consciente e com vistas à redução dos impactos ambientais do seu consumo.

Embora o discurso seja sedutor, é necessário olhar essa proposta com cautela. Certamente, o consumidor tem sua dose de responsabilidade em bem escolher o que consome. Mas, até que ponto pode, de fato, exercer o seu direito de escolha? Será que sempre é possível escolher o que se quer consumir, numa organização social em que apesar da enorme variedade e das inovações que são lançadas diariamente no mercado, os produtos se originam de um universo mais ou menos restrito de produtores e fornecedores?

É o que tem ocorrido, por exemplo, com a entrada pesada dos produtos chineses no mercado global. Nesse caso, praticamente não há escolha ao consumidor, pois, ou aceita comprar o chinês ou nada feito: vai ficar sem computador, sem celular, sem as lembrancinhas de Natal e até sem roupa para vestir! A recusa no consumo de produtos cuja origem seja chinesa é, nos dias de hoje, praticamente impossível, já que, mesmo que nos comprometamos a não comprar itens de consumo com essa origem, muitas vezes eles entram na produção de outros bens, e acaba-se consumindo-os sem saber.

Embora o velho e bom boicote deva permanecer firme como uma importante ferramenta de interferência dos consumidores nos rumos do mercado, não há como negar que cada vez mais certas questões - como é o caso da degradação ambiental, da má distribuição de renda, da qualidade de vida, entre tantas outras - por sua magnitude e complexidade, exigem que se lance mão de outras soluções que não dependam apenas das ações individuais dos cidadãos mais conscientes, mas que se fundamentem na força da participação social e em soluções pensadas e praticadas coletivamente.


O consumidor individual deve, sim, estar atento ao que consome. Contudo, cabe também ao Poder Público e aos fornecedores estar atento ao que tem sido colocado à disposição da sociedade e, principalmente, sensíveis às situações de vulnerabilidade do consumidor. Produtos que se originam de processos insustentáveis do ponto de vista social e ambiental, por melhor que seja seu desempenho no aspecto econômico, não se justificam, exatamente porque o ganho se estabelece através da perversa "socialização dos prejuízos e privatização dos lucros". Por isso, a efetivação dos direitos dos consumidores, especialmente pela defesa dos interesses difusos e coletivos, é certamente um passo fundamental e imprescindível para cogitar uma verdadeira mudança nos atuais padrões de consumo.